28 de dezembro de 2011

O VÔO DA ÁGUIA BOÊMIA


Minha alma é águia boêmia...
voa alto sem dimensões explicáveis
e medo de onde vai chegar.
Minha alma é a noite onde cruzam
as esquinas do coração.
É morada das estrelas mais brilhantes,
a luz do meio-dia e a melancolia da solidão.
Minha alma é viajante...
manhã de campos floridos
e amores indefinidos.
É fome insaciável de vida,
sede interminável de justiça
e o dedo que cutuca as feridas!
Minha alma é morada de sentimentos
além do bem e do mal.
É chama ardente,
sopro de rebeldia, água cristalina
e vento que se transforma em vendaval!
Ela é um mar febril e selvagem
onde navega desejos e paixões fugazes.
Minha alma é um grito mudo,
a voz do silêncio.
É a santa que reza e a puta que peca!
Minha alma é mãe, amante, filha
e os acordes inacabados de uma sinfonia.
Ela é cruel e bondosa, fútil e sutil,
é iluminada e sombria,
doce e amarga... ácida e gentil!
Minha alma, em sua essência,
é mentira e verdade...
É um porão de pesadelos obscuros
e sonhos inalcançáveis.
Minha alma é imperfeita...
mas luta para alcançar a perfeição.
É águia boêmia que atravessa
horizontes elusivos
em busca do desconhecido.
Desliza solitária num céu embriagado
entre derrotas e vitórias.
Minha alma voa, voa... mas voa tão alto
que perde-se no infinito.
Mas, não importa...
não importa nada como ela esteja:
ferida e cansada, feliz e realizada
ela sempre encontra o caminho
de volta pra casa!

Janaína da Cunha
28/12/2011




29 de novembro de 2011

ROSAS E SEDUÇÃO


Recebi suas rosas.
Sinceramente, preferia que fosse você no lugar delas...
mas, gostei das rosas!
Rosas pintadas com o sangue
que bombeia minha saudade...
saudade que queima, consome
e ao mesmo tempo me faz sentir viva!
Vesti minha nudez de sedução
e cativei as rosas no meu carinho.
Estou sozinha no quarto,
abrigada nos esconderijos do coração.
Fiz das pétalas uma colcha de desejos
e o seu nome passeou pelos meus lábios
como o farfalhar da asa de uma borboleta.
Coloco o CD de Enya,
escolho a música "Only Time"
e me deito na cama mergulhada
entre as pétalas.
Essa música me faz lembrar o seu sorriso
quando começo a falar sem parar.
Enquanto digo mil palavras
seu silêncio me contempla,
me fascina... me seduz!
Eu me calo e seu olhar me diz tudo que precisava ouvir:
o quanto sou especial,
linda e importante na sua vida.
Volto a falar e sua boca me cala com um beijo melado
de sorvete de manga - o seu preferido!
Fecho os olhos, abraço meu travesseiro
e me perco nos desejos mais lascivos.
Reinvento realidades, mato o pecado
e ressuscito a inocência dos meus versos
me tocando em sua homenagem.
A música me envolve
e meus dedos violam o que sua fome mais devora.
O peso do seu corpo não está sobre o meu,
mas, onde estiver
seus gemidos serão para mim...
e os meus serão seus!
Só o Tempo vai dizer aonde esse caminho irá nos levar...
sem promessas...
sem pra sempre...
O HOJE é nosso "pra sempre"!
Ao seu lado o tempo não tem tempo...
e o tempo é o nosso infinito!

Janaína da Cunha
26/11/2011



21 de novembro de 2011

SÓ POR HOJE


Só por hoje quero me embriagar de vida
e viajar nos braços da ilusão.

Só por hoje eu quero voltar a ser aquela menina
que frequentava a escola bíblica dominical
e se sentia protegida de todas as dores
quando segurava a mão de sua mãe.
Como gostaria que essa menina renascesse das cinzas
que a marca da vida deixou na mulher!
A menina que acreditava em sonhos impossíveis,
que o poder do amor era capaz de modificar o coração do homem
e de transformar o mundo num lugar melhor.

Só por hoje eu quero voltar a ACREDITAR!
Acreditar na humanidade,
na força dos meus versos
e nas palavras dos grandes homens
que assinaram seus nomes na história.
Marthin Luther King onde está você?
Ghandi onde foram parar seus ensinamentos?
Valeu a pena, Malcom X, tudo o que você passou?
Madre Teresa de Calcutá... para que tanto amor, tanta entrega?
Vocês lutaram por acreditar em algo maior,
se doaram por outros homens
que bordam suas vidas em mesquinharias e enganos!
Muitos foram os homens e mulheres que acreditaram
na justiça, no amor e na esperança
como um dia eu acreditei quando era criança.
E daí? Posso dizer: "Garças à Deus" por isso?

Valeu a pena pregar suas ideologias, viver por elas,
doar suas vidas e derramar seu sangue
por amor a humanidade como Jesus Cristo fez?
Por quem?
Por esses homens ingratos, cegos pelo preconceito,
surdos de covardia e mudos de orgulho e prepotência?
Valeu? Será que valeu?

Seres humanos onde está a sua humanidade?
Indago isso todos os dias quando ligo a televisão
e assisto prostitutas e gays sendo espancados covardemente.
Quando leio no jornal e vejo meu povo se matando
e pedófilos safados roubando a inocência de nossas crianças
no lugar de protegê-las!
Meus olhos observam nossos políticos roubando sonhos
e rindo descaradamente da cara do povo
em vez de servirem sua nação como prometeram antes de serem eleitos.
Minha alma chora quando presencia mais um amigo querido
se perdendo na ignorância da fogueira dos desejos irracionais.

Aprendi na escola que todo homem é um animal racional...
É mesmo? Somos?
Somos seres racionais?
Cada dia vejo mais amor e humanidade nos animais ditos irracionais:
num cachorro, num gato, num papagaio... mas, não no homem.

Seres humanos onde está a sua humanidade?
Onde está seu senso de clemência, sua benevolência,
seus valores e educação moral?
Os homens perdem-se de si mesmos
e desviam-se dos seus caminhos em nome da vaidade!
Já dizia o sábio Salomão: "Vaidades de vaidades, tudo é vaidade!"

Só por hoje eu quero acreditar que AMAR vale a pena.
Que sementes jogadas ao vento vão cair em solo fértil...
que nada é em vão!
Desejo seguir em frente com minhas crenças.
Afinal, seguir em frente é fácil.
Na realidade o que mais dói é a angústia da despedida.
HOJE eu me despeço dos meus versos sofridos.
HOJE eu abandono o medo de ser feliz
e bebo da venerável taça da ESPERANÇA.

Só por hoje eu quero acreditar
que o meu HOJE são todos os dias.
E todos os dias ressuscitarei a menina
que acreditava num mundo melhor
porque a mulher que sou hoje
ACREDITA na HUMANIDADE.

Janaína da Cunha
08/11/2011

14 de novembro de 2011

A NOVA MULHER


Não é raro andarmos pelas ruas e depararmos com alguma adolescente grávida. Não é de hoje que a sociedade e a família brasileira enfrentam essa situação. Como ser mulher quando ainda se é uma menina? Não é fácil crescer de repente. A vida adulta é um caminho sem volta.

Com o aumento de meninas grávidas e mães solteiras, nos anos 80, o governo uniu-se às famílias para conscientizar nossos adolescentes. Desde então palestras sobre gravidez na adolescência têm sido dadas nas escolas. Jornais e revistas renomadas passaram a dar atenção ao problema, programas de televisão voltaram sua atenção para o assunto. A família brasileira tornou-se mais cautelosa.

Um novo tempo nasceu e o grande número de mães solteiras exigiu que a mulher saísse para o mercado de trabalho. A mulher tomou sobre si a responsabilidade de chefe de família, a provedora do lar.

A evolução dos tempos trouxe a libertação das mulheres que mantinham suas vidas abreviadas na imagem de "Amélias". Eis que surgiu uma nova mulher: forte, independente, mãe, amante, esposa e profissional capaz de competir com os homens de igual para igual. As mulheres contemporâneas, conscientes do seu "novo" papel na sociedade, não deixaram de ser femininas, contudo desvendam a força do "sexo frágil" que reside em sua essência.

Essa nova mulher chora e ri. Toma decisões importantes. Preocupa-se com a beleza e luta contra o tempo. Ela não deixou de sonhar com uma bela família, lar e filhos; apenas abriu seus olhos para um novo horizonte. A mulher dos tempos modernos sabe a diferença entre ter um bebê e ter um filho. Largou o tanque para ocupar cargos públicos; dispensou o fogão e ocupou lugares na faculdade; trocou o avental pela roupa da evolução como ser humano e cidadã do mundo.

Reflito como mulher, mãe e profissional que a nova mulher está capacitando-se cada vez mais para um universo que outrora pertencia apenas aos machos.

E os homens? Alguns exemplares masculinos ainda não estão preparados para essa nova mulher que segue incansável e perseverante na luta pela valorização e reconhecimento de sua capacidade. Cabe a nós - mães - orientar nossos filhos de forma adequada quando meninos para se transformarem em homens melhores; afinal ainda é das mulheres a maior responsabilidade na criação dos filhos.

O modo que os homens de amanhã vão tratar suas mulheres e enxergá-las dentro da sociedade vai depender muito da formação e dos valores que uma mulher - universalmente conhecida como mãe - passará a seu filho. Nossa responsabilidade é muito grande: cultivar o bom caráter do homem quando menino. As mulheres reclamam muito do modo como são tratadas pelos homens, mas está em suas próprias mãos a solução. Não ensine seu filho apenas a ser bom, mas instrua-o a ter um BOM CARÁTER e a ser JUSTO.

O verdadeiro homem apaixonado pelas mulheres não valoriza somente as curvas de um admirável corpo feminino; ele ama a essência da mulher! Seu nome é: homem contemporâneo, ou melhor, homem inteligente. Ele procura ter paciência - mesmo fingido - para ouvir as necessidades dela. Toda mulher gosta de falar e muito mais de ser ouvida; isso não mudará nunca! E, sem perder a masculinidade, esse homem tem sensibilidade de encantá-la todos os dias.

Mulher não se ganha, meu senhor: mulher se conquista e reconquista todos os dias!

Janaína da Cunha

* Nota da autora - Livro: ENTREGA - A ESSÊNCIA DE UMA MULHER (Janaína da Cunha - Editora: Nitpress)

21 de outubro de 2011

SANTOS E PROFANOS


O relógio bate meia-noite,
sinto sua presença intensa em mim.
Quando vejo sua imagem
me ajoelho em veneração.
Deixo meus lábios tocarem sua santidade
em uma profana oração.

Quando me abre seus braços,
como asas de um anjo caído,
sinto-me em casa.
A cama se revela um altar
e ouço o coro celestial.
Fecho meus olhos
e deixo suas mãos me guiarem
como uma menina em sua primeira comunhão.

Santos e profanos...
um homem e uma mulher
num mistério em quatro paredes
onde nada é proibido e tudo é concebível!

Que Deus me ajude...
o véu do templo foi rasgado!
Como boa devota, me ajoelho
novamente em promessa
e perco-me nas preces ao meu santo pagão.

Estava perdida e você me encontrou.
Revelou-me o diagrama dos antepassados,
despertou a fêmea adormecida,
salvou minha sede e matou minha fome!
Salve meu santo pagão!

Quando me abre seus braços
não me sinto mais sozinha.
Sou uma Joana D'Arc desvirginada
entregando-se em sacrifício
ao fogo que arde em seu olhar.
Como uma pobre mártir me queimo toda!
Morro e renasço numa cruz de carne.

Que Deus me ajude...
o véu do templo foi rasgado!
Em sinal de respeito
seguro sua vela firme entre meus seios.
Fecho meus olhos e com muita fé
sigo sua voz que ilumina a escuridão.

Santos e profanos...
um homem e uma mulher
desvendando doces mistérios
em fervorosa devoção!
Salve, salve, salve... Ó santo pagão!

Janaína da Cunha
21/10/2011



19 de outubro de 2011

CAMINHOS

Minha alma dói a mais pura e conflitante das dores.
Na contradição dos extremos,
só combatemos grandes sofrimentos futuros
enfrentando angústias que não queremos.
As vezes é necessário tomarmos decisões,
por mais dolorosas que sejam,
para continuar caminhar.

As lágrimas regam desertos de desilusões,
mas caminhar é preciso.
Não há flores pelo caminho...
encontro pedras e espinhos,
mas caminhar é preciso.
Sou conquistada e depois afastada...
o coração chora,
mas, sigo em frente porque caminhar é preciso.
O tempo caminha e eu caminho com ele.

Vou onde o vento me levar,
estou em suas mãos.

Já estive disposta a esquecer meus sonhos pelos seus.
Andar ao seu lado...
ser seu riso, sua costela...
me abrigar em sua sombra.
Mas, você preferiu caminhar sem mim... e eu respeitei.
Amei tanto, no mais intenso amor de alma,
que acabei me perdendo de meus planos.
Obrigada por me lembrar
que sou a pessoa mais importante da minha vida.

O que eu mereço agora é tomar um banho de chuva
que lave minha alma,
que limpe a poeira dos meus pés
e afogue todas as minhas desilusões.
Eu preciso anoitecer tempestades,
madrugar em sonhos e,
ao amanhecer, brilhar como o sol.

Hoje, adivinho coisas que ninguém me conta.
Não tente viajar em meu mundo
para não se perder na solidão.
Sou turista de versos doloridos
e me visto de opiniões que mudam
de acordo com a realidade do momento.
Minha agenda está guardada no meu olhar...
Não, não tente ler as entrelinhas,
sou boa em mensagem subliminar.

O que eu preciso é tomar um bom banho de chuva.
Chuva que lave minha alma,
que limpe a poeira dos meus pés
e afogue minhas desilusões.
Sou senhora de meus amores
e dona do meu caminho.
Minha história sou eu que escrevo
e faço, sozinha, o mapa do meu destino.

Janaína da Cunha
18/10/2011

17 de outubro de 2011

NÃO SEI ESCREVER VERSOS DE AMOR


Não sei escrever versos de amor
e ao mesmo tempo cansei
de carregar tanto sentimento só para mim.
Encontrei uma escada para o infinito...
Quanto mais eu subo,
mais as estrelas fogem do meu olhar.

O céu escapa entre meus dedos
e os meus pés não conseguem tocar o chão.
Flutuo num sonho perdido
na imagem de um beijo que não terminou...
Olho nos seus olhos e você não me vê!
Toco seu corpo,
mas você segue em frente
sem sentir a ternura que a pressa de viver roubou.

Pra sempre é muito tempo!
Eu me contentaria apenas com a eternidade
de um minuto ao seu lado.
Pra sempre é muito tempo
para quem não tem mais tempo de errar.
Pra sempre é muito tempo
para quem caminha à passos largos
em direção ao nada.

Cansei de carregar tanto sentimento
dentro de mim.
Brinco de esconde-esconde com a dor
e me perco no silêncio das palavras.
Sou poeta,
mas ainda não aprendi a escrever
versos de amor.

Janaína da Cunha
12/10/2011

13 de outubro de 2011

ODE AOS SAFADINHOS



Rabisco nos vestígios 
da memória de um passado
que nunca aconteceu
um futuro que morreu no presente.
Se a linha da vida fosse escrita à giz,
apagaria meus erros com 
um lenço vermelho de seda
pintado no sangue de todos 
os amores que assassinei.
Minha trajetória está cheia 
de crimes violentos contra o amor
e minha consciência cachorra 
não me absolve de culpa.
Cansei de brincar com os homens 
certos e perfeitos enquanto 
o homem errado não vem.
Odeio pessoas normais 
porque fazem mal a minha loucura.
O comodismo delas 
e suas conclusões hipócritas
me fazem entender menos ainda 
o sentido de humanidade.
Gente muito certinha,
muito correta me apavora... 
elas são capazes de atos terríveis!
E os santos?!
Nossa! Essa é a pior espécie!
Santos não bebem, não fumam, 
não mente, não fodem...
Ah, fodem, sim... com a vida dos outros!
Julgam, julgam... só julgam!
Julgam errado tudo o que os outros fazem 

e também o que não fazem.
Julgam-se a cima do bem e do mal,
julgam o que não conhecem, 
o que não compreendem,
o que não tem coragem para falar... 
podem tudo!
Simplesmente porque são santos!
Quer saber?
As melhores pessoas do mundo 
são as safadinhas.
Adoro os homens safados!
Eu disse safados, não canalhas.
Safados gostam e sabem fazer uma safadeza
sem denegrir a imagem de uma mulher.
Os canalhas não possuem caráter 

e nenhum valor moral.
Tratam as mulheres como se fossem 
um mero objeto,
uma escarradeira sem importância
ou um simples depósito de espermas!
Deles eu to fora!
Homem safado tem cara de safadinho,
cheiro de safadinho,
voz, sorriso, andar... tudo de safadinho!
Engana-se com ele quem quer!
Eu venero uma boa e saudável safadeza.
Safadeza ingênua e carinhosa
daquelas que encanta.
Ultimamente tenho me guardado
para o safado da minha vida...
aquele que envelhecerá ao meu lado 
fazendo e falando muita sacanagem -
pelo avanço da idade, 
falando mais do que fazendo.
Amo minha desordem, 
minhas idéias loucas 
sobre o certo e o errado.
Não consigo viver longe 
do meu direito de ser o que EU SOU.
Quando se trata da minha liberdade
meu universo está fechado para negociação...
definitivamente ela não está à venda!
Sou livre e ponto final!
Minha dignidade não está alugada 
para as convenções
dessa sociedade medíocre 
que mede um ser humano 
por sua conta bancária
e adora chamar de vadia 
toda mulher que assume gostar de sexo.
Eu ADORO sexo! E daí?
Mereço ser condenada por isso?
Sexo faz bem para a pele, 

para a saúde e rejuvenesce.
Um homem pode trepar a vontade,
deixar suas "ovadas" onde passar 
que é considerado
o gostosão, o garanhão, 
o fodão da rua larga!
Mulher não pode... é feio!
Bando de falsos moralistas e hipócritas!
Por isso eu gosto dos loucos, 
dos safados, boêmios e putas.
Pelo menos deles sei o que vêm pela frente!
Prefiro levar uma bofetada na cara, 
no meio da lata,
do que uma punhalada covarde pelas costas!
Quer me criticar?
Critique! É um direito que você tem.
Eu não ligo mesmo... já estou acostumada!
Agora, só mais uma coisinha:
antes de me criticar 
faça melhor do que eu faço...
seja melhor do que eu sou!


Janaína da Cunha
13/10/2011

*Foto do poeta e escritor alemão, Charles Bukowiski,
conseguida no site: http://cinemaexmachina.wordpress.com/

24 de setembro de 2011

RUPTURAS

Algo foi rompido dentro de mim.
Uma fenda se abriu no meu interior sugando
sonhos, esperanças, ilusões...
Já não me sinto a mesma,
mas apenas um ponto perdido num espaço vazio.

Não há lágrimas nos meus olhos, 
mas por dentro minha alma chora...
Não há tristeza em meu sorriso, 
mas por dentro minha alma chora...
Não há pranto na imagem de mulher, 
mas por dentro minha alma chora!

Minha alma chora pelos amores que não tive...
pelos afagos que deixei de dar
e pela filha da puta que fui comigo mesma... 
muitas e muitas vezes!

Estou cansada de ver e não enxergar...
De enxergar e não acreditar...
De querer e não ter...
De ter e não possuir...
De tocar e não alcançar...
De alcançar... e deixar escapar!

Afogo a solidão e o medo de amar 
numa garrafa de tequila
e encaro todos meus demônios 
escondidos no fundo da garrafa:
"Vem que tem, meu bem... 

estou pronta para o que der e vier!"

Janaína da Cunha
24/09/2001

Foto conseguida na net


24 de agosto de 2011

PRECE À LOUCURA


Loucura nossa que estais em mim,
seja feita vossa vontade no meu corpo e minha alma. 

O sonho nosso de cada dia nos dai hoje
e contamine o mundo com a dádiva da esperança.
Perdoai meus breves momentos de sanidade 
assim como também concedo o perdão aos que me julgam.
Não me deixeis cair na tentação 
de desistir dos meus sonhos,
livrai-me da hipocrisia e das línguas de víbora. 

Santa Loucura, mãe de todas as vontades e realizações,
não permitais que eu esqueça as minhas raízes
e muito menos de quem realmente sou.
Erguei-me dos fracassos pelo caminho
e protegei-me das armadilhas do sucesso.
Santificados sejam os que me amam,
bálsamos presentes na tribulação.
Benditos sejam os que me odeiam porque
sem eles não teria estímulo para lutar.
Louvados sejam os que me chamam de "cabeça de vento"
porque o vento existente em minha cabeça 
trouxe-me até aqui.
Glorificados sejam os que me acusam 
de loucura porque só os loucos 
são armados de audácia 
e coragem para mudar o que precisa ser mudado. 

Decerto que o AMOR, a JUSTIÇA e a DIGNIDADE
me acompanharão todos os dias de minha vida
até o fim da eternidade.
AMÉM!

Janaína da Cunha
04/01/2011
* Imagem conseguida na net.

14 de julho de 2011

METAMORFOSE


Meus desejos seguem em reticências num espiral de agonia.
Sou uma metamorfose de minhas incógnitas...
Uma mutação desordenada de conjecturas filosóficas.

Para que viver se não existo 
na complexidade de uma mulher livre?

No ultimo suspiro de condenação da minha obscuridade
sigo por caminhos tortuosos
em direção ao cadafalso de minha consciência.

Pressinto a sombra de demônios 
que sedutoramente me cobiçam.
Tenho a sensação de que nada pode me salvar...
Numa tentativa desesperada,
pego um papel e uma caneta para expurgar os fantasmas
que habitam no abismo do meu ser.

Olhos conhecidos me denunciam...
Bocas amigas me julgam...
Ninguém conhece as cicatrizes que carrego na alma
e nem imagina a luta incessante que enfrento
toda vez ao me ver no espelho.

Quem é essa imagem refletida?
Quem realmente eu sou?

Sobrevivo num redemoinho de emoções...
Vivo numa confusão feroz de sentimentos... 
mas sigo em frente!
Sigo em frente na contramão do ser e do querer.
Sigo em frente na contradição da prática e da teoria.

Minha vontade firme de expandir-me 
ao encontro dos meus sonhos
é muito maior do que a fraqueza 
antropológica que me persegue!
Estou cansada de ser uma caricatura de mim mesma
esperando a original sair do casulo.
Ainda sou larva em transformação moral.

Salve, salve *Beauvoir!
Se tu conseguistes... também conseguirei!

Janaína da Cunha
13/07/2011

* Simone de Beauvoir: escritora, filósofa existencialista e feminista francesa. Escreveu romances, monografias sobre filosofia, política, sociedade, ensaios, biografias e uma autobiografia. Companheira de Jean-Paul Sartre.

* Foto conseguida na net

7 de julho de 2011

PISANDO DESCALÇA EM ESPINHOS


Onde foram parar as pétalas das rosas 
que tu me destes?
O amor murchou como a rosa vermelha
que um dia enfeitou meus cabelos.
Os versos que tu escrevestes 
com a língua em meu corpo
se apagaram...
e o vinho transformou-se em sangue tinto!

Piso descalça em lembranças
e a saudade me fere como espinhos.
Sinto falta das tuas verdades mentirosas
e do teu desejo despretensioso 
tocando minha carne nua.

Promessas nascidas na cama, 
nela permanecem...
Palavras ditas no deleite de um orgasmo 
com ele morrem...
Morrem?

No amanhecer assassino um sentimento,
mas deixo outro no seu lugar florescer.
Continuo caminhando descalça em espinhos
porque prefiro sofrer por amor 
do que viver sem existir!


Janaína da Cunha
07/07/2011
Foto conseguida na net

6 de julho de 2011

ANJO NEGRO


Percorri caminhos sem rumo...
sem ter certeza de chegar...
sem ter para onde voltar.
Circulei os desatinos de minha alma
sorvendo lentamente o cálice letal de minhas dores.

Só há perdão quando existe arrependimento.
Só há cura quando existe uma enfermidade.

Negro Anjo de embriagues lasciva,
asas caídas e alma ferida... encontrei-te!
Disse-me: "Segura minha mão e vem!"

Encantei-me com a escuridão do teu olhar
e tornei-me lua na noite dos teus versos.
No reverso de formas inexpressivas,
meu coração 
- que aparentava estar morto - 
restituiu-se purificado à vida!

Janaína da Cunha
06/07/2011

22 de junho de 2011

HORAS MORTAS


Minha alma desliza no branco do papel 
versos noturnos e solitários.
A insônia acorda meu sono em busca 
de suprimentos para o vazio que me devora.
Sinto um abismo incoerente em meus pensamentos 
que me distancia da mulher que sou 
e daquela que desejo ser.

Tenho sede de vida... fome de mundo!
Sou poeta... 
sou uma fonte inesgotável de sentimentos.
Nestas horas mortas que me perseguem 
entrego-me aos desejos mais profanos e, 
ao mesmo tempo, 
tão diáfanos!

O que fazer?
Não me contento com pouco 
porque tenho um universo dentro de mim.
Posso ter o direito de sucumbir as veleidades 
que me enlaçam 
num devaneio louco de mulher comum?
Não! Eu sou poeta!

Pouco a pouco encontro em mim 
os murmúrios de poesia que 
vão criando as formas mais imagináveis.
Não, não... não! Eu quero mais!
Não me contento com palavras vazias... 
quero mais, muito mais!
Ambiciono a MAIS poluidora das inspirações, 
a arte MAIS libertadora, 
o encontro MAIS improvável de céu e inferno.
Sim! Mais... sempre MAIS!

A madrugada faz do meu quarto 
um túmulo mundano 
com janelas emperradas 
e cadeados enferrujados.
Lá fora a lua presencia meu velório poético 
enquanto o vento sincroniza 
a marcha fúnebre da madrugada.
As horas seguem o enterro das estrelas 
que choram a solidão de meus versos.
Ah! Destino contraditório de um poeta que caminha involuntariamente entre a benção e a maldição.

O galo, atrevidamente, anuncia o despertar do sol...
Porém, dentro de mim, a escuridão ainda persiste.

Morro em cada ponto final, 
mas revivo na ilusão de um novo parágrafo.

Janaína da Cunha
3:35 da madrugada do dia 22/06/2011
Foto conseguida da net.